O adeus chegou sorrateiro e quieto, um silêncio que calava a minha boca. Você atendeu o telefone e eu soube que não havia mais desenho em seu rosto, nem circo para fingir ser engraçado. Não havia nada além dos sentimentos que você não sentia. A realidade foi dura e me pegou pelo braço.

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Pego a minha mala do chão. Mais uma vez vou embora. Você está em sua casa, em seu lugar, seguro. E sou eu quem precisa sair. Não há mais conversa, nem mesmo discussão. Acabou e você determinou essa partida ao meio. Faço o que tenho que fazer e caminho em frente.
Ah, eu estou tão cansada de me despedir. De ter que seguir em frente deixando algo que amo. Eu saio sozinha, mas na verdade sou eu que sou deixada. Meu coração ainda não se recuperou do que viveu, mas precisa se erguer. Meu corpo ainda caminha torto, minha mente ainda queima nos pensamentos insistentes, mas acabou.
O que importa agora são minhas coisas, minhas cores, minhas malas dentro de casa - em segurança. 


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Estou suja. Tocada por suas mãos desamorosas.
Você foi embora deixando nos cantos dos meus braços suas digitais. E abraçou para soltar em seguida.

Tuas marcas insensíveis, teu descuido em machucar e tua forma de dizer não te fazem parecer modesto e atencioso. Mas a verdade é que a sutileza também dói. 
Estou suja. Suja de desamor.

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 Naquela loja de cds do centro da cidade, enquanto os meus olhos deslizavam sobre os discos de vinil, aquele cara abriu a porta de vidro com os olhos enfiados numa expressão melancólica. O ruído da porta me fez olhar para trás e observar quem se aproximava. Na verdade, neste dia, eu estava especialmente disposta a não prestar atenção em nada que não fossem os discos que eu procurava e o cheiro do café forte que vinha do fundo da loja. Café forte do jeito que eu sempre gostei: queimando na língua as frases ainda não ditas. Mas o cara estava lá e não deu para não reparar nas olheiras que ele carregava embaixo dos olhos. Quase como se estivesse tentando dizer: "Me dê um cd de Oxford gravado em 92, um café e troco pra 50".

Eu não estava ali para prestar atenção na conversa dele com o vendedor, no livro que ele segurava, ou na maneira despretensiosa com que ele disse: "Quero só o The Bends hoje." Pensei que ele tinha mesmo cara de quem ouve Radiohead. Isso enquanto eu fingia ler a contracapa de um disco que eu já tenho.
Eu não estava lá para me distrair com os óculos dele, mas, mesmo assim, não deu para não perceber que ele preferiu o café sem açúcar. E ainda comentou com o atendente que gosta do café forte e puro. Bem assim ele disse. Eu prestei atenção. Quer dizer, enquanto olhava a mesma pilha de discos pela segunda ou terceira vez.

Engraçado como algumas pessoas conseguem demonstrar facilmente o tipo de música que gostam em pequenas atitudes. O tipo de pessoa que consegue desenhar no rosto a capa do cd preferido. É como ter certeza que durante o verão dos dezenove anos o cd que mais tocou foi aquele no Nirvana.

E foi mais ou menos assim que eu tive vontade de conversar com esse cara que segurava um livro de capa verde, bebia seu café forte e puro e assobiava uma das minhas músicas preferidas. Perdido no mesmo mundo que eu, com algum mistério nas mãos.

Peguei meu café e sentei-me ao lado da janela só para ver a chuva da cidade cinza e os carros com os vidros fechados. Três da tarde de uma sexta-feira em que eu saí para comprar um disco e acabei comprando só um café. Um copo médio que acompanhava observações pessoais e os gostos musicais de um estranho.

Tudo ali, bem posicionado. Ele em pé assobiando e eu pensando quantas cartas de amor são escritas e rasgadas ao som de Damien Rice. Que das coisas que a escola não ensina, grandes lições estão fracionadas em encartes de cds. E que as respostas para um amor mal resolvido podem não estar em discussões passionais, mas no lado B de um disco de 72.

Tomei o último gole de café e apoiei meu queixo na mão. E aí, antes que eu me desse conta, ele pediu licença, sentou-se à minha frente e surpreendeu o inevitável:

"Você já tem todos aqueles álbuns dos Beatles, certo?"
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Não precisa falar nada. Às vezes as coisas apenas são como são. Não precisa citar sua frase preferida de um livro para tentar me explicar que a dor é passageira como um pássaro que sai da gaiola. Nem precisa se sentar, não precisa abrir as suas mãos, você não tem que me preparar um chá ou cuidar de mim. Dói, sim. E estas lembranças continuam amargas mesmo que o caramelo dos teus olhos tente me acalmar.
Pode ficar quieto. Apenas ouça, é o que eu preciso. Na verdade eu só desejo falar e você pode fazer o que quiser com isso. Tenho estado nesta prisão de mim mesma há meses. Não pude sair para ver o Sol brilhando em minhas pupilas grandes; não tive permissão para me encarar e dizer as verdades bem escondidinhas em meus sutiãs; não falei comigo mesma sobre o dia em que você foi embora. Sabe como é quando você sabe que está errando consigo mesmo e você continua e continua porque, afinal, quer que a tristeza fique lá no canto? Como quando fechamos as janelas e fingimos que não é dia. Eu não atravessei a rua da sua casa e passei longe de todos os restaurantes que você adora. Eu gostava muito daquele que fica quase na esquina da Consolação, mas também não fui. Mesmo amando aquele milk shake eu não fui. Me sentar novamente onde nos olhávamos iria doer de novo a ferida rasgada em uma quinta-feira. Não sei se você se lembra, ainda não era Verão. Os pássaros cantavam no meio da tarde, borboletas visitavam os quintais, havia esperança nos perfumes das flores e meu coração acreditava que era feliz.
De tudo isso eu lembro. Digo agora porque não há garganta no mundo que suporte mais calar a tristeza que você me fez passar. Mas veja que em minha voz não tenho raiva. É a constatação de um momento que surgiu em minha vida como um trem que atravessa um trilho enferrujado.
Quando acabou eu não liguei o rádio. Houve silêncio. E depois lágrimas quietas foram interrompidas por um pranto que trazia grito e o susto de últimas palavras não terminadas. Suas reticências naquela noite só queriam dizer para que eu me tornasse muda. Com um tom de voz com o qual eu nunca havia ouvido você falar, dizia o quanto eu era errada para você.
Nesse ponto você já sabe o que foi que causou meus dias expostos na ferida. Foi para sangrar que você me pediu paz.

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Cigarro em dedo de mulher nua, whisky sem gelo ao lado da cama, contos escritos por Anaïs Nin, Serge Gainsbourg cantando com Jane Birkin; você fechando a porta do carro, eu abrindo a perna para cruzá-la. Arranque de mim o cigarro, beba o whisky, coloque Alice Cooper para tocar; lamba minhas coxas e sinta o gosto das notas que escorrem quentes em direção ao seu rosto. Cada canto da cama sente esta pressão e eu não posso resistr.
Escrevo como quem andou pelo centro da cidade e ouviu seu nome
por bocas sujas. Engatilhada eu beijo e sugo. E minhas mãos sobem.


Duas xícaras de café deixadas sob a mesa. No fundo o que restou. Assim como nós; no fundo o que restou.
Veio até minha casa com as flores roubadas do jardim ao lado. Mas eu ignorei esse fato. Você estava lá com toda sua altura e óculos de sempre. Eu vestia minha saia preferida.
E então alguém - não me lembro quem foi - sugeriu café, o que foi uma ótima ideia. O café nos deixa mais a vontade; tem a sensação de conforto que ele dá. A gente começa com um gole quente e no fundo da xícara fica o que restou.

O que restou de nós além dessas conversas na varanda e os livros emprestados?
Sexo.

Estávamos deitados no chão da cozinha, com um lençol que embrulhava nossos corpos e tentava dizer que não era só sexo por sexo.
- Quer uma xícara de café?
Me levantei para pegar algo para comermos e da onde te via você parecia uma imagem perfeita para fotografar e guardar perto do coração.

Você se levantou e passou o dedo sobre meu lábio. Depois beijou-o e deixou no fundo do xícara o resto do que foi aquela noite e aquele adeus.

Pó de café.

No fundo, você só encontrou o que restou do meu amor.

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Eu vou levar comigo. 
Vou dormir e ninar em meu peito teu sorriso e tua frase mais bonita, a que se diz quando a sinceridade está alta. Você nadou em mim e eu fiquei com teu gosto.
Eu vou dormir com a tua pele salgada misturada com meus textos mais simples. 


A chuva cai e eu já repeti isso antes de desligar a tv e dar boa noite mentalmente para você mesmo sem você saber que eu sou a menina que escreve de madrugada com uma taça de vinho.

Meus lábios se misturam também com o jeito de falar que eu lembro de você. A gente ia junto pelas escadas e se amava nos olhos na cara e nos dedos cruzados. Era arriscado. Que se foda o medo! A gente dormiu abraçado e no meio da madrugada eu olhei para você e teus olhinhos de sono me diziam ‘Como vai você?'
E isso eu vou levar comigo.
A chuva aumenta. Não é mais chuva, é tempestade. 
Agora não é mais medo, é coragem.

Veja bem, agora eu abri o peito e mostrei o coração, sangue e pólvora. Estou marcada com as verdades e a vida se mostrou. Sorria no meu rosto, coloque o disco para tocar, abrace minhas costas com os teus cabelos para trás. Como eu gosto, eu gosto de ir no seu abraço. E levo comigo o que for bom.
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Uma gota escorre em minha nuca.
Lírios balançam sobre os meus braços nus. O ardor da saudade é uma flauta que toca o seu nome. Na segunda-feira eu escrevo um texto sobre você, no domingo eu ouço estas músicas de você.

Você não é ninguém, além dos meus beijos. Quem dera eu dormir sobre o seu peito até esquecer que eu tenho os olhos de uma mulher apaixonada.
Quero lembrar de você puxando o seu cabelo para trás e meus lábios mordidos pela minha própria boca antes do abraço ser cama e o fio da noite nos enrolar.
Rosas numa coroa em minha cabeça. Se eu escrever um texto agora não se acanhe. É só o meu jeito de me apaixonar.
Livros, discos e porta-retratos empoeirados. 
Meu bem, você tem um ringue para você em meu coração.

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Imagem: Madonna

Quis acender um cigarro, mas apenas se calou.
O vento vinha com força, bagunçava os cabelos e provocava os poros de seu corpo. Manu aproximou os braços tentando se esquivar do frio. Poderia ir para a cama. Ver um filme, quem sabe. Mas preferiu continuar ali, de camiseta, na sacada do apartamento, sentindo tudo com força sem que precisasse explicar para ninguém.
Sua forma de viver era como um álbum do Cazuza. Solidão que nada!
As costas estavam no batente gelado da porta, o corpo sentia a noite e ela era uma mulher estrela contínua em suas próprias maneiras. Concluía na mente um poema, repensava o título e cedia ao cigarro. Tragou sua própria intensidade. A mesma observada na rua com óculos escuros.
Sorriu na malícia de saber que um cigarro não seria o suficiente e que uma tragada a faria desejar muitas outras.
Era assim, como o vento que batia as janelas e mexia com os poros de quem estivesse por perto. Achava uma delícia!
Exatamente como estava sendo, como um disco do Cazuza, boca, nuca, mão e a tua mente não. Vestindo uma camiseta e com um copo de café coado após a meia noite.

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  Imagem de Théo Gosselin



Aqui, neste traçado que é meu peito, sinto o coração bater mais forte. Forte como a onda do mar que, cheia de espuma, molha os pés dos aventureiros.
Eu queria ser esse próprio coração, bombeando sangue - uma simbologia para vida. Sim, eu queria ser este coração que faz viver. Que molha os pés dos felizes e faz sorrir os indecisos. Eu queria, talvez, ser meu próprio coração para mandar mais vida quando a maré estiver escassa.


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