* Imagem : Weheartit

A tua boca acesa e os teus olhares longos, eu me lembro bem. Eu sinto ainda. Ainda vejo as estrelas no céu do quarto, a pele iluminada, o corpo limitado, a razão fugindo pelas bordas. Os teus pêlos rastejantes, a pele morena, a ousadia plena dos escorpianos. O querer reverso, sem flores, sem muitas palavras, sem esquinas e sem quarteirões. Uma rua só nossa se abrindo na retina. Muito fôlego, vermelhos imensos , paixão, lençóis, batons.  Tecidos descomportados na cama box. Arrepios na nunca, calcinha nos pés, mãos andantes a passos largos. Os teus olhos acesos, a tua passada longa, eu lembro bem. Eu sinto ainda.


*Imagem: Maud Chalard

Qualquer dia desses, teus olhos. Eu na mira da tua boca, do teu corpo, da tua chama. Qualquer dia desses, eu, acesa. Lolita, fome, fato, pacote embrulhado para presente.

Qualquer dia desses, nós outra vez. O mesmo relógio no teu pulso, o mesmo carro, as mesmas noites torrenciais de chuva e abrigo. De estrada a fora.

Qualquer dia desses, meus olhos. Você na mira da minha boca, meu corpo, minha chama. E a gente derruba tudo, bagunça tudo.  Eu só fui muralha até você chegar.

Qualquer dia desses, roupas pelo chão.  Saudade suada, abrindo botões, portões, janelas.
Qualquer dia desses, teus olhos de novo. Numa praça, numa rua, num shopping. Através do vidro, entre o vestido e a minha pele.

O coração reconhece.

*Imagem: Théo Gosselin

Doeu muito. Mas não dava mais ser segunda opção. Ser tua em horário comercial, encontros intercalados. Amores mofados não rendem boas histórias meu bem. Doeu, doeu sim. Doeu acabar com tudo, rasgar o verbo, te dizer aquelas verdades. Doeu pôr um ponto final, onde você só via reticências. Doeu não me comover, segurar a vontade de te abraçar, transformar a vontade de te beijar em adeus. Doeu contar os dias e dizer: fim!

Doeu.

Está doendo até agora. E eu pensei em viajar, te dissipar num bom vinho ou numa outra boa companhia, quem sabe. Porque você não era ruim. Você era másculo, era macho, era safo. Mas não era meu. Doeu tanto que eu hibernei na dor. De propósito. Eu morri e renasci de novo e de novo. É provável que você ainda esteja em meus olhos e que permaneça em meu corpo por algum tempo. Mas nenhum tempo é morto e algum tempo, não é todo o tempo, consegue entender?

Dói te ver. Mas eu te vejo e sinto que vou voar de novo, assim que as asas quebradas sararem. Sou aquele passarinho insistente que canta todas as manhãs em janelas bonitas, já ouviu falar? 

Sou fênix.


Imagem: Weheartit

Não ando sozinha. Sou uma mulher de bagagens. Nécessaire, maquiagens, porta-retratos, fotos amareladas de tempo. Tempo guardado em caixinhas acrílicas, livros novos e usados. Telefones anotados em papel de botequim. Lista de coisas, caixas de  tranquilizantes, cds gravados no computador, antes da época  do mp3, spotify ou rapidshare. Tenho ainda as memórias, todas muito bem organizadas em gavetas repaginadas com adesivos florais.

Não sou mulher de andar sozinha.  Tenho meus discos, meus moleskines. Bilhetes de metrô em ordem cronológica. Uma escrivaninha de herança para reformar.Tenho minhas próprias janelas, o  meu sistema solar. Não sou mulher de andar sozinha. Vou com meu mar.


Das tendas de onde vim, a intensidade rasga roupas, acende olhares, desvia chuva, arranca flores, planta fogueiras, abre o peito, rasga a pele, privatiza os olhos, rouba o brilho, constrói casas de abraços, põe boca a boca no umbigo e troca o café pelo vinho quente. Transforma rio em mar e tece mares nas correntes sanguíneas. Faz-se sangue, veneno ou cura. Cura tudo. Abre olhos em nuvens, corta os ares em aviões desgovernados, arrisca no jogo, prende pela cintura, abre portas onde só existiam pernas fechadas.

Das tendas de onde vim, a intensidade não é compra, mas troca, marca de nascença.

*Imagem: Weheartit

Essa história de amar retraidamente não me atrai. Tem que explodir pra fazer sentido. Doer, fazer sorrir, fazer chorar, sabe? Tem que explodir tudo numa briga boba que renda um abraço bem forte depois, num carinho de rotina ou num suspiro inesperado.

Tem que explodir numa música, longe das linhas retas e dos dias perfeitos. Tem que pulsar nas entrelinhas e nos meus olhos. Tem que amarrotar a minha roupa e o meu orgulho, quando ele teimar em ser mais forte.

Nada de contido, nada de adormecido, nenhuma gota de comodidade. Tem que explodir casas inteiras e também nascer nos filmes clichês no sofá da sala. Tem que explodir nele e em mim. E que não precise de um motivo. Que seja real e que pulse a qualquer dia, hora, em qualquer lugar.

Não acredito em amor contido. Que não floresce, que não cresce, que não desarruma, que não dá leveza aos pés, que não dá asas.

Amor tem que explodir. Primeiro dentro, numa linda trajetória. Depois fora, com balões coloridos.

*Imagem: Theo Gosselin

Acredito, de verdade que SENTIR é uma das forças mais poderosas do universo. A gente movimenta tudo. Coração, pele, músculos, a gente exercita a alma em potencial.
Acredito, de verdade que Sentir é dádiva.
Quer Sentir? Sinta.
Ninguém disse que sentir é necessariamente falar de amor, falar para com quem se tem amor, falar de alguma forma. Sentir é apenas sentir. E já nos basta. E já nos diferencia de tudo, de todos.

Você estará vivo até mesmo se for destes que sente sem segredo.



Sou Beatriz. Aquela que sente tudo. Arrisca tudo.  Aquela que não tem medo  de rasgar o peito e a blusa.  Sou rio e desejo. Me visto de vermelho em noites de sexta-feira e saio por aí cantando beleza. Sou Beatriz. Nem Bia, nem menina, Beatriz. Pele que escorre, boca que concretiza, coração que não tem medo.

Desconheço muros num homem. Desconheço limites quando uma mulher sabe o que quer. Não sei planejar a vida, nem destratar os encontros de alma que já tive até aqui.
Uma existência válida precisa nos mudar de lugar. Outros olhares, outros bares.

Sabe, quando respirar tem outro nome? Pó de estrela, nuvem, sistema solar, coisas pequenas.

Bem vindo, bem vinda, sou de imensidões, sou de significados.

*Imagem: Weheartit

Eu pulso.  Sempre pulsei mais forte do que todas as outras meninas da minha idade. Sempre escrevi pedaços meus em diários, cartas ou fotografias. E sempre precisei de música para dar sentido à vida.  Sempre estava lá, quando se tratava de dirigir a noite, beber um vinho ou assistir filmes clichês.  Para falar a verdade, eu nunca coube em nada, em ninguém, em lugar nenhum. Eu sempre achei que eu fosse escrever um livro, já que transbordo desde que nasci.  Sempre tive medo de não ter mais o que escrever, sobre o quê escrever. Mas o amanhã sempre traz um motivo, o hoje também. Estou aqui transbordando e respiro por isso.

Gosto de palavras que se transformam em MAR.




Imagem: Weheartit

Sempre que te vejo sou destas pequenas explosões: cheiro, sexo, perfume, memórias encantadas de tua voz. Arrebatadora, desarmada, felina e forte. Mulher para tudo. Jeans índigo com salto quinze, andar mirado por teu olhar. Mar aberto, ilha no fim do mundo, cara lavada, manhã seguinte, mão no seio, boca na nuca.

 Desalmados não sentirão.

Sempre que te vejo, sou esse pequeno furacão. Passando, cantando o redemoinho, olhos fartos de desejo, personalidade despida naquele canto iluminado do quarto.

Sempre que te vejo, sou destas grandes explosões. Porte pequeno, abraços enormes, lua particular. Sou destas pequenas explosões.

Pensar, sentir, vestir o vento.